quarta-feira, 10 de julho de 2013

Entrevista com o grande jornalista Luiz Carlos Azenha.

Entrevista exclusiva: Luiz Carlos Azenha

Luiz Carlos
Azenha 
tem mais de 30 anos de vida jornalística.
Ingressou na Rede Globo onde se tornou correspondente internacional,
passando por mais de 40 países, cobrindo fatos que
marcaram o milênio.
Passou por quase todas as emissoras de TV,
mas é de seu último posto em Nova York, como
repórter especial na Globo Internacional, que lhe
rendeu seu mais novo projeto: o Blog Vi o Mundo.
Azenha, está de volta ao Brasil pela
Rede Globo de São Paulo, onde produz matérias
para o Globo Reporter, Jornal Nacional e SPTV.
iMasters conversou com Luiz
Carlos Azenha, mostrando sua visão sobre a relação
entre a Internet e o Jornalismo. Boa leitura!

iMasters
 – Luiz Carlos Azenha, você saiu de
Bauru/SP, sua cidade natal, há mais de 20 anos para
correr o mundo, e agora está de volta ao Brasil pela
Rede Globo de São Paulo. Como você analisa
a imprensa brasileira, de uma maneira geral, neste seu retorno
ao país? Até que ponto você acha que
a Internet mudou o jornalismo no país?
Nos grandes centros, onde
há mercado para sustentar as publicações,
há uma imprensa de fato independente e vigorosa.
No interior houve consolidação, não
há mais do que um grande jornal por cidade. A expansão
das emissoras de tevê locais e as publicações
na internet foram os fenômenos dos tempos recentes.
Não acredito que a internet tenha mudado o jornalismo.
Ela mudou para os formadores de opinião, acelerou
o ciclo jornalístico. Hoje nenhuma redação
prescinde de acesso a todos os sites de informação,
que se pautam uns nos outros através das informações
da internet. Existe um risco embutido nisso: os jornalistas
deixaram de checar informações publicadas
na internet. O jornal português “O Expresso”
deu que o Delúbio Soares foi dez vezes a Portugal.
Toda a imprensa brasileira deu isso, atribuindo isso ao
jornal. E ai? O Delúbio foi mesmo? Que se saiba até
agora, não.
iMasters
– Mark Kramer, professor de Harvard, em visita a Lisboa
disse que “os jornais estão mergulhando em
uma crise sem precedentes”. Vendas em queda, leitores
em fuga e é claro Internet, esta última trouxe
o que o mesmo chama de “crise do próprio jornalismo”.
Luiz, concorda com o fato de que o jornalista atual, presenciando
o àpice desta “crise” possa ser algo
mais do que a mera repetição dos fatos, lançado
muitas vezes por agências noticiosas?
Vai ver que ele disse isso
porque estava em Portugal e não teria dito o mesmo
se viesse ao Brasil. Quando se fala em internet, tem muito
achismo. Eu não conheço estatísticas
sobre as taxas de leitura dos brasileiros, nem sobre as
finanças de jornais e emissoras de tevê. Duvido
da falência de jornais por causa da internet. Eu olho
o padrão de consumo dos mais jovens. Eles talvez
não leiam os jornais do mesmo jeito que os pais,
mas usam a internet como se usa um menu de um restaurante.
A garotada escolhe na internet o que quer ler e gosta de
interagir com quem escreve. Tenho um amigo, César
Seabra, que mantém um blog no jornal “O Globo”
e recebe cerca de cem comentários diários.
Esse mercado era inexistente.
iMasters
– Com a velocidade de informação lançada
pelas novas mídias as pessoas ouvem fatos e dispensam
jornais que repetem os mesmos com 24 horas de atraso. Ao
que parece, o jornalista que realmente quer vencer este
impasse, deve abandonar sua forma "narrativa"
de jornalismo e adota uma nova maneira de relatar os fatos.
Em entrevista ao site iMasters, o jornalista Marcelo Tas,
afirmou que “vale muito, nessa era (da informação),
o talento de contador de história”. Os leitores
querem mais do que fatos, querem histórias, no sentido
mais nobre do termo?
Acabou a grande reportagem
nos jornais brasileiros, não é mesmo? A norma
é publicar textos curtos, enxutos, seguindo a lógica
de que o leitor não tem tempo “a perder”.
Acho que a reportagem aprofundada e bem escrita é
A saída dos jornais para competir com a internet.
O “New York Times” perdeu credibilidade nos
Estados Unidos, mas está bem acima da média
por causa da qualidade do texto e da profundidade das reportagens.
O mesmo vale para os telejornais. Em breve as pessoas vão
chegar em casa, à noite, sabendo tudo o que aconteceu
de importante no dia. Precisam ser motivadas por reportagens
bem produzidas para assistir a um telejornal. Também
acredito que o didatismo é o caminho. Ainda hoje,
escrevemos “a Revolução Russa”
ou “a Queda da Bastilha” partindo do pressuposto
de que o leitor, o ouvinte ou o telespectador sabem do que
se trata. Esquecemos que, no Brasil, a mídia só
pode crescer incorporando milhões de pessoas que
não tiveram a mesma educação formal
“da elite”.
iMasters
– Luiz, tem conhecimento da existência algum “movimento”
no meio jornalístico com um estudo mais a fundo sobre
o impacto da internet no meio e as possibilidades que ela
abre?
A decisão de todas
as grandes empresas jornalísticas de investir na
internet deriva do fato de que é possível
criar uma nova fonte de renda com o mesmo material produzido
para o jornal, a rádio ou a tevê.
O “New York Times” vende por cerca de um dólar
reportagens antigas que constam de seu banco de dados. Vende
as melhores fotos do jornal em posters. A Globo.com reproduz
trechos de novelas, reportagens e programas que não
implicam em custo adicional, só em faturamento. Parece
uma lógica simples.
iMasters
– Azenha, os blogs vem sendo ferramentas fundamentais nesta
era da informação, muitos deles fazerm papel
de testemunhas vivas dos fatos e relatam o acontecimento
no momento imediato do seu acontecimento. Fato recente que
bem caracterizou esta máxima, foram os atentados
a Londres onde os blogs assumiram papel jornalistico decisivo,
uma vez que, as redes de TV estavam confusas mediante há
imprevisibilidade terrorista. Fale-nos um pouco sobre seu
projeto virtua, o blog Vi Mundo, onde publica matérias,
bastidores das notícias e reportagens sempre com
um comentário pessoal?
Por falta de tempo, eu não
pude ainda me dedicar a um blog de rápida atualização.
Eu adoraria interagir diariamente com os internautas. No
meu caso é um site mais tradicional, atualizado diariamente,
em que conto histórias sobre reportagens que fiz
ou que estou fazendo. Decidi lançá-lo quando
notei o grande interesse das pessoas pelos bastidores, pelo
que acontece atrás das câmeras, pela minha
opinião pessoal sobre os fatos. E tem dado muito
certo. Tão certo que a própria Globo.com se
interessou em hospedar meu site, que era independente –
ficou interessada no conteúdo.
iMasters
– Depois de passar por mais de 40 países cobrindo
guerras, fatos importantes que marcaram o milênio
e na produção centenas de reportagens, você
tem algum outro projeto futuro que envolve a integração
das mídias, o uso da web ou alguma nova tecnologia?
Meu objetivo de longo prazo
é viver exclusivamente de Jornalismo na internet.
Infelizmente, o mercado brasileiro ainda não amadureceu
para isso – é questão de tempo. Não
tenho dinheiro para o investimento, mas me parece muito
boa a idéia de vender conteúdo para as empresas
de telefonia celular. Uma rede americana está testando
novelas de 20 capítulos, cada uma de um minuto, vendidas
exclusivamente para assinantes da telefonia celular. Animações
de alta qualidade, como se fossem histórias em quadrinhos
de terceira geração.
iMasters
– Uma pergunta breve. Você acredita que o “furo
jornalístico” ainda exista?
Com certeza, mas ficou mais
difícil conseguir um. Há câmeras amadoras
espalhadas por toda parte e gente que usa o celular para
passar informação ao vivo para as rádios.
Todo mundo virou um pouco jornalista, né? Eu acredito
muito em pegar um assunto banal, batido mesmo, e dar a ele
uma nova leitura, mais aprofundada, com novas perspectivas.
Fiz há pouco um Globo Repórter sobre depressão
– um assunto sobre o qual muito se fala – em
que tive a sensação de ter conseguido um pouco
disso. É o meu caminho.
iMasters
– O seu projeto online (blog) segue uma nova linha do mercado
jornalístico onde os profissionais fazem o chamado
“corpo a corpo” com os leitores, uma vez que
são instrumentos extremamentes interativos. Essa
é uma sensação nova para o jornalista?
Quando você fala, no
Jornalismo, para 30 milhões de brasileiros de uma
só vez – como no Jornal Nacional – parece
que sua reportagem foi colocada num buraco negro. No dia
seguinte, é outra reportagem. Falta um retorno de
qualidade. A internet permite isso. As pessoas podem ler,
refletir, criticar – é uma experiência
muito prazerosa. Há um risco nisso: o do jornalismo
popstar, aquele em que o profissional sacrifica a qualidade
por causa da vaidade.
iMasters
– Por fim, como já é tradicional, queria te
pedir para nos deixar uma bibliografia, bem como um autor
que vem lhe rendendo a atenção, para os que
se iniciam ou já estão no meio jornalístico
e têm você como uma referência.
Eu sou de fase. Agora tenho
lido muito sobre política internacional. Li “The
Longest War”, de Dilip Hiro, sobre a guerra entre
o Irã e o Iraque, que ajuda a esclarecer fatores
que acabaram gerando toda aquela turbulência regional.
Estou lendo “Stalin, a Corte do Czar Vermelho”,
de Simon Montefiore, que dá uma nova visão
sobre a vida do ditador soviético; e um livro sobre
a fome catastrófica que matou 3 milhões de
pessoas na Coréia do Norte – sem que o mundo
praticamente soubesse disso. Eu gosto muito de coberturas
internacionais e sempre digo aos jovens que pretendem se
preparar para exercer a profissão: leiam tudo o que
disser respeito à sua área de interesse. Desligue
a TV e a internet e leia.
iMasters
– É com enorme satisfação que a equipe
iMasters recebe este grande nome do jornalismo nacional.
O nosso muito obrigado, Luiz.

2 comentários:

  1. Que espetacular entrevista!
    Sou fã, ou seja, grande admiradora do Azenha.
    Parabéns a ele e a você, Professor Tim, pela divulgação.
    Um abraço,
    da Lúcia

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  2. olá,estou publicando um livro e preciso da autorização do marcelo rezende pois utilizo seu nome, como faço?

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